Engana-se quem acha que a disputa do MBL ainda é nas ruas

Diferente do que muitos usuários vem afirmando desde as manifestações de ontem, a impressão é de que o Movimento Brasil Livre, na realidade, nunca quis ir às ruas nesse domingo (26/03). A movimentação teria se iniciado pelo Vem Pra Rua, outro movimento que já vem, desde o ano passado, apresentando sérias divergências em comparação ao MBL, conforme ressaltado aqui no dia 04/12.

Ao analisarmos não apenas o dia 26/03, mas também a véspera dos atos, o que podemos observar é uma maior mobilização por parte do movimento Vem Pra Rua, com convocações e menções a todo o tempo lembrado as manifestações, os locais e as pautas dos organizadores. Por outro lado, o MBL foca durante o período em postagens de apoio à Doria e um possível “conflito interno” entre PSDB e DEM pela chapa de 2018, intercalado com defesas das reformas trabalhista/previdência proposta pelo governo Temer. Basicamente o que as redes aparentam é: o MBL nunca quis ir às ruas nesse domingo. O movimento teria ido foi às ruas “obrigado” por aqueles movimentos que o acompanharam durante o período do impeachment.

Vem Pra Rua

Principais termos utilizados pelo Vem Pra Rua nas postagens dos dias 25 e 26/03

O ponto – no mínimo curioso – é: o MBL aparenta estar muito mais envolvido no que cada vez mais se desenha como uma disputa interna partidária. A questão central é entender quem financia e quem impulsiona essa disputa cada vez mais escancarada nas redes. As agressões são nítidas: o dia 25/03 foi marcado por um bombardeio intenso à Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente teria, dias atrás, atacado João Doria, figura central nessa disputa e extremamente defendida pelo MBL.

Principais termos utilizados pelo MBL nas postagens dos dias 25 e 26/03
Principais termos utilizados pelo MBL nas postagens dos dias 25 e 26/03

A página do MBL chegou a apresentar, no dia 25/03, uma movimentação maior do que no dia 26/03. Nesse dia, das 10 principais postagens em engajamento, sete foram de defesa à João Doria e ataques ao que consideram “esquerda-tucana” e ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. As outras três se dividiram em ataques à Lula, críticas aos sindicatos e convocação para os atos do dia seguinte.

No grafo abaixo podemos observar a importância para os atos – esvaziados, é verdade – dos movimentos Vem Pra Rua e MBL. O primeiro foi responsável por 62,96% do grafo, com 85.312 nós e 256.579 arestas, enquanto o segundo corresponde a 37,04% do grafo com 50.195 nós e 91.691 conexões. Quando analisamos as principais publicações em engajamento a diferença é ainda maior: das 20 principais, 18 são do Vem Pra Rua e apenas duas são do MBL.

Cluster verde: MBL; Cluster vermelho: Vem Pra Rua. Atividade entre os dias 25 e 26/03
Cluster verde: MBL; Cluster vermelho: Vem Pra Rua. Atividade entre os dias 25 e 26/03

Outras análises precisam – e deverão – ser feitas nos próximos dias, focadas especialmente na compreensão de uma causalidade ou correlação entre ausência/presença do MBL, poder de mobilização, financiamento das manifestações e poder político.

É importante que setores progressistas não se acomodem com o cenário, ou sequer posem como vencedores nessa disputa. O MBL continua sim, muito forte. O Vem Pra Rua já mostrou que, sozinho, perde-se e não vai a lugar algum. O que se desenha aqui não é a vitória de algum movimento sobre a direita e o conservadorismo nas ruas. O que se pode supor, na realidade, é uma retirada estratégica Movimento Brasil Livre das ruas, acompanhada de um crescimento forçado do Vem Pra Rua no vácuo de poder deixado pela ausência proposital do MBL.

Assim esse domingo registrou, na realidade, não a falência do MBL enquanto aglutinador de pautas e mobilização da sociedade insatisfeita, mas sim a incapacidade de outros movimentos como o Vem Pra Rua de cumprirem essa função sozinhos. Enquanto isso o MBL se dedica a outras pautas, assuntos e disputas, digamos, um tanto quanto obscuras.

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