A importância do “não alimente os trolls” na política

Muito se discute sobre o “poder da atenção” e tempo gasto por usuários de agrupamentos contrários a determinados movimentos e atores nas redes sociais online para a escalada e ascensão desses mesmos atores contra os quais eles se posicionam contra.

Tomamos aqui como exemplo o deputado federal Jair Bolsonaro. Quando muitos atacam as menções ao deputado com a justificativa de “Não alimentem os trolls“, muitos questionam, duvidam e até mesmo argumentam que tal movimentação não tem peso algum – ou é irrelevante – frente a já consolidada campanha promovida pelo deputado federal nas redes sociais online. Será?

Analisamos durante os dias 24 e 27/06 menções ao deputado federal e potencial candidato à Presidência em 2018, Jair Bolsonaro. Dentro do debate gerado entorno desse ator, um tweet nos chamou atenção, o do deputado federal pelo PT, Enio Verri.

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Tweet/enquete feito pelo deputado petista que acabou “saindo pela culatra”.

Durante o período de análise, foi capturado também o buzz gerado a partir da divulgação de pesquisa sobre intenção de votos do Datafolha, no dia 25/06, em que o deputado Jair Bolsonaro aparece em 2º lugar, empatado com Marina Silva e atrás de Lula.

O resultado? Uma tentativa, digamos, frustrada por parte das redes do deputado petista de angariar um engajamento potencialmente temerário na forma de um “tira teima” da pesquisa no Twitter. A tentativa falha acabou por “absorver” o deputado petista para… o mesmo agrupamento que o deputado federal Jair Bolsonaro!

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Em números, a rede ego que se formou a partir do perfil de Enio Verri representou 11,3% dos nós e 11,76% das arestas representadas no grafo. Na análise? Pouquíssimo disso resultou em um engajamento efetivo nas redes do deputado por um longo período, sendo a grande maioria feita por fãs e seguidores de Bolsonaro que o fizeram, a partir de forte mobilização, vencer a enquete promovida pelo deputado petista.

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Talvez seja até tentador, mas é essencial calcular, analisar e planejar a abordagem dada ao seu concorrente, adversário ou até mesmo inimigo nas redes sociais online. Não se trata apenas de trollagem promovida pelos adversários, mas sim pela potencialização de temas, pautas e atores que as publicações buscam justamente confrontar.

Foto via Um Sábado Qualquer

Cuba & Trump no Twitter: ataques ao presidente americano e preocupações pelos charutos

Entre os dias 16 e 17 de junho foram capturados tweets envolvendo Donald Trump e o termo Cuba. Esse primeiro projeto de rede resultou em um grafo formado por 65.545 nós e 94.197 arestas.

Posteriormente, a fim de aferir quais os principais agrupamentos formados a partir dessas interações capturadas pelas ferramentas, foi gerada uma rede que resultou em um grafo composto por 59.323 nós e 88.398 arestas. Ou seja, basicamente 90,51% do total de nós registrado no grafo anterior.

Após a modularização desse segundo grafo, foi possível mapear os principais agrupamentos gerados a partir do algorítimo de modularização – que calcula a probabilidade de um determinado nós [nesse caso, usuário] estar incluído em um determinado grupo/comunidade ou em outro.

Dentre os agrupamentos criados, analisamos aqueles que reúnem ao menos 0,15% de todo o grafo em seu cluster. Assim, foram analisados 12 agrupamentos distintos.

Trump e Cuba? O quê aconteceu?

Donald J. Trump anunciou a revisão do acordo de reaproximação com Cuba. Esta nova política não reverte os feitos da aproximação iniciada por Washington e Havana em dezembro de 2014, mas endurece os seus termos.

Dentre as medidas, Trump fixou medidas mais estritas para controlar que os americanos que viajem à ilha o façam efetivamente em alguma das 12 categorias já implementadas por Obama, nenhuma das quais inclui o turismo – vale lembrar que empresas aéreas e de cruzeiros para Cuba fizeram investimentos milionários nos últimos dois anos para se preparar para o novo cenário bilateral.

Talvez o ponto mais curioso é que, tratando-se de um tema que envolve diretamente dois países, chama a atenção a ausência de uma mobilização essencialmente cubana entre os principais agrupamentos, fato que pode ser explicado por inúmeras variáveis sócio-político-econômicas que não fazem parte dessa análise. No entanto, aqui, observamos que o antagonismo à medida política promovida pelo governo de Donald Trump parte dos próprios americanos, a partir de um ponto de vista que não defende o país caribenho, sua população ou seu governo, mas sim ataca o presidente americano a partir de argumentos que reforçam a visão do retrocesso que tal ação representa para àqueles contrários as sanções promovidas pelo mandatário norte-americano.

Se interessou por essa análise feita a partir das redes sociais online? Aprofunde seu conhecimento sobre esse tipo de análise a partir do curso de Análise de Redes Sociais oferecido pela IBPAD!

Dentre os movimentos que se posicionam contrários à Trump destacam-se os democratas, venezuelanos pró-Maduro, movimentos engajados nas denúncias contra a discriminação racial, diversos meios de comunicação e, talvez o mais curioso capturado por esta análise, fã-clubes de charutos cubanos extremamente preocupados com possíveis sanções de Trump contra o produto.

Chama atenção a atuação de robôs venezuelanos no volume de tweets produzidos no período, bem como o perfil de embaixadas cubanas pelo mundo, com destaque para Espanha e Quênia. É importante ressaltar, no entanto, que robôs estão dispostos dos dois lados: defesa e ataques à Cuba, quase sempre fortemente conectados também a realidade política venezuelana.

Para além das ponderações necessárias, os – poucos, é verdade – tweets georreferenciados mostram uma movimentação maior em países de língua hispânica, além do diretamente envolvido Estados Unidos.

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O envolvimento de usuários da América Latina – em especial Venezuela e alguns outros como Bolívia, com destaque para o presidente Evo Morales – parece “suplantar” a ausência de uma rede fortemente engajada nas redes sociais online que seja oriunda diretamente do país envolvido, no caso Cuba. Ainda visando “superar” a ausência de Cuba no Twitter, diversas embaixadas e Ministérios se posicionaram nas redes sobre o tema, gerando a partir daí diversos agrupamentos engajados com o tema.

Quem falou sobre o tema no Twitter?

Abaixo, o grafo criado a partir da captura e processamento dos tweets sobre o tema e, posteriormente, os principais agrupamentos analisados após o processamento dos dados:

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Agrupamento I: 33,2%

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Agrupamento marcado por usuários mais próximos aos democratas americanos. Entre as agências de notícias e imprensa, aqui destacam-se MSNBC e CNN. Alguns cantores e senadores – com destaque para Flórida e Connecticut se destacaram. Destacam-se aqui as comparações entre Cuba e Arábia Saudita [Oriente Médio], sendo o principal questionamento “Trump in Miami: I’m a “voice against repression” in Cuba (he’s expressed no similar concerns on human rights in Saudi Arabia, Turkey, Egypt), tweet de Bradd Jaffy, editor da NBC.

Basicamente, aqui, a defesa não se faz diretamente ao regime cubano ou ao país caribenho, mas sim ataques à Donald Trump e ao seu discurso retrógrado contra o país.

Agrupamento II – 21,38%:

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Fortemente militar e em defesa de Donald Trump. Robôs e fakes atacam o presidente, é verdade, mas aqui a presença de estados como Tennessee e Wisconsin. Médicos que se definem como “de imigrantes LEGAIS [com ênfase no termo legal]” e participação de usuários venezuelanos contrários aos governos chavistas no país latino-americano.

Agrupamento III – 18,2%:

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Agrupamento fortemente contrário à Maduro na Venezuela, com participação de usuários que circulam entre Miami e Venezuela e destaque para o usuário “dólar today”, fortemente envolvido na oposição à Nicolás Maduro. Aqui o perfil da presidência venezuelana foi “dragado” para dentro do agrupamento pelo volume de citações.

Agrupamento IV – 7,94%:

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Apoio aos imigrantes nos EUA, membros do governo Obama e o presidente boliviano, Evo Moralles, são destaques nesse agrupamento. Destaca-se a defesa à Cuba promovida por embaixadas cubanas na Espanha e Quênia, bem como o Ministério de Relações Exteriores de Cuba. A Telesur também está presente nesse agrupamento, juntamente com a Sputnik. Maior volume de usuários apoiadores do governo cubano.

Agrupamento V – 5,52%:

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Perfis reacionários brasileiros e imprensa. Amplamente reconhecidos pelo posicionamento de direita/reacionários nos debates políticos brasileiros no Twitter.

Agrupamento VI – 4,38%:

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Perfil vegano e imprensa Americana e internacional. Forte caráter informativo e formal.

Agrupamento VII – 2,17%:

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Forte envolvimento de movimentos raciais dos EUA, com destaque para o Black Lives Matter e diversos rappers, advogados engajados em questões raciais e cultura afro-americana. Destacam-se também comentaristas políticos da CNN e repórter da Bloomberg.

Agrupamento VIII – 1,85%:

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Imprensa francesa e mobilização superficial pró-Trump movida por robôs.

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Abaixo, outros agrupamentos registrados na análise e que merecem destaque:

3,64%: heebiejeebys: Perfil com um tweet que foi replicado. Extraordinário.

Tweet Interessante

Tweet extraordinário que gerou um agrupamento específico ao seu redor.

0,91%: Apoiadores de Maduro e entusiastas de Chávez fomentados principalmente por robôs e excessivo número de retweets.

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Usuários preocupados com a importação dos charutos cubanos.

0,31%: Talvez um dos mais interessantes agrupamentos formados a partir do tema: trata-se de um agrupamento formado ao redor de uma conta sobre charutos, preocupada com a legislação e importação do produto cubano no futuro. Inclui também correspondente do El País em Miami e El País internacional.

0,15%: Analistas conservadores, colunista conservador, jornalista e integrante do governo George W. Bush. Muito envolvido com dois projetos: The Heritage Foundation e Conservative Review.

Como as redes nos ajudam a entender a queda na aprovação de João Doria

O prefeito de São Paulo, João Doria, com certeza já viveu meses melhores em sua vida – e até mesmo em seu curto governo – do que o mês de maio. Marcado por diversas polêmicas e ações que mereceram até mesmo moções de repúdio da ONU, Doria se viu acuado por inúmeras acusações. O resultado? Uma queda – ainda que dentro da margem de erro, é verdade – em sua aprovação perante os paulistanos.

Segundo pesquisa do Datafolha divulgada nessa segunda-feira [05/06], João Doria viu a porcentagem de “fez pela cidade menos do que você esperava” saltar de 39% em fevereiro para 47% em abril e 53% em junho. Mas e o mês de maio?

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Pesquisa Datafolha divulgada dia 05/06.

 
O mês de maio talvez guarde a explicação para a queda, entre abril e junho, no percentual de “ótimo/bom” do prefeito – bem como do crescimento de “ruim/péssimo”. Ressalto aqui, mais uma vez, que ambos os valores encontram-se dentro da margem de erro. No entanto, não podemos negar a tendência à queda.

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Resta nos perguntar o porque – e quando – que ações que foram tomadas podem ter acarretado essa queda na avaliação de um prefeito que, nos olhos de boa parte da mídia e de seu eleitorado vem fazendo uma gestão impecável.

As redes sociais, as mesmas que são tão utilizadas pelo atual mandatário paulistano, podem nos ajudar a elucidar isso. Abaixo, ressalto três momentos de picos de menções registrados no Twitter durante o mês de maio, quando do monitoramento de tweets com o termo “Doria“.

Picos Doria

Três picos de menções são extremamente relevantes para a análise: 01, 18, 23, 24 e 26/05.

Crises diferentes, momentos diferentes e temas diferentes. Mas todos envolvendo diretamente o prefeito paulistano: episódio envolvendo flores, viagem com o deputado Rocha Loures, internação compulsória, manifestações contra a violência na região chamada de Cracolândia e demolição de prédio que acabou ferindo moradores na região da Luz.

Mês do Doria

Ainda que o “buzz” entorno da região denominada Cracolândia por parte da imprensa e do poder público seja significativo, o tema com maior impacto para João Doria foi a viagem com o deputado federal – agora preso – Rocha Loures.

O tema da “Cracolândia” ainda mostra-se extremamente delicado e, para a sorte da gestão Doria, conta com dificuldades de abordagem por parte da esquerda. Explico: tags em defesa da região como “#CracoResiste” sofrem extrema resistência em setores alheios ao debate sobre a região. Assim, enquanto movimentos sociais e em defesa da região não mobilizarem-se por meio de uma pauta muito mais representativa sobre a região, o tema ainda que gere bastante buzz contra João Doria, prosseguirá surtindo pouco efeito para além da polarização política.

Assim, enquanto João Doria luta para manter a imagem de “não sou político, sou gestor”, imagens circulam nas redes e buscam provar o contrário, ligando o prefeito à Michel Temer, Eduardo Cunha, Rocha Loures e Aécio Neves. O risco de cair na vala dos políticos tradicionais [e condenáveis perante os recentes escândalos] soa muito mais perigoso no eleitorado recém dominado por João Doria. A magia que se desenhou durante os últimos nove meses pode desaparecer em questão de semanas.

Como as palavras mais utilizadas durante o #OcupaBrasília nos ajudam a entender o cenário

Alguns dos principais termos utilizados durante as manifestações do dia 24/05, em Brasília, durante o #OcupaBrasília.

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Observa-se uma predominância de termos que remetem ao vandalismo no agrupamento de direita [azul], Ali, termos como “vândalos”, “fogo”, “invadem”, “fumaça”, “#LulaNaCadeia“, “militares” e “caos” associam-se à “agricultura”, “ordem” e “imagens”. Observe, aqui, que Temer não é um dos termos mais presentes nesse agrupamento, que apenas utiliza-se das ações do presidente para posicionar-se contra as manifestações dos movimentos sindicais.

Azul

Já no agrupamento de esquerda/progressista [vermelho] termos como “povo” e “manifestantes” se contrapõe a generalização de vândalos proposta pelo agrupamento azul. As denúncias contra a violência policial são transmitidas por meio de termos como “reprimir”, “armas”, “policiais”, “atiram” e ataques ao “presidente” com termos como “golpe” e “corrupto”. Temer ainda é fortemente questionado pelo “decreto” que acionou o “exército”. Aqui, direita e esquerda se somam nas menções à “ruas”. Enquanto a esquerda mostra uma ligeira preferência pelo termo “exército”, a direita opta pelo termo “militares”.

vermelho

Outros termos como “dragão”, “estimação”, “derrubem” e também “imagens” foram utilizados por usuários que ironizaram os atos de vandalismo contra os ministérios e a frase de Michel “Temer” que, dias antes, utilizou a frase “Se quiserem, me derrubem”.

Doria atacando Lula? Sinal de que as coisas não vão tão bem para o tucano

Dias atrás ressaltei e analisei a semana, digamos, um tanto quanto “ingrata” para o prefeito paulistano nas redes sociais online. Doria foi atacado por diversas frentes durante o período, ficando acuado em um ambiente em que costuma ditar o jogo.

A partir desse período [28/04 até 08/05] busquei analisar qual foi – ou seria – a reação do mandatário da paulicéia frente a enxurrada de críticas que dominavam as timelines e tinham diversas justificativas: 99táxis e Uber, tentativa de furar a Greve Geral, ataques à ciclistas e retirada de ciclovias, flores atiradas ao chão, aumento no número de mortes nas marginais, agressões a pessoas em situação de rua e por aí vai. O alvo do descontentamento, no entanto, era apenas um: João Doria.

O grafo abaixo mostra a movimentação, no Twitter, durante as últimas duas semanas com o termo Doria. Para fins metodológicos, foram capturadas 185.704 ocorrências, com picos expressivos nos dias 28/04 e 01/05. O curioso aqui é que ambos os picos foram registrados em datas marcadas por manifestações ligadas à classe trabalhadora. Aparentemente, as tentativas eleitorais de ligar João à classe vêm encontrando dificuldades para se propagar nas redes para além da massiva campanha feita durante o período eleitoral.

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Nele estão presentes dois grandes agrupamento nitidamente distintos: o vermelho representa usuários detratores de João Doria e sua gestão, enquanto o azul mobiliza apoiadores do prefeito. O agrupamento de detratores aqui representa mais de 60% do grafo, enquanto os defensores da gestão e do prefeito tucano representam menos de 34%. O ponto curioso aqui é: o que falam ambos os agrupamentos?

Entre os detratores da atual gestão, conforme ressaltado acima, não há segredo: são ataques movidos contra a hostilidade pública de Doria em relação aos cicloativistas [ciclista], dificuldade em reconhecer os erros no aumento da velocidade das marginais e consequente aumento no número de mortes nas vias [flores], tentativa de intimidar usuários com equipe de advogados nas redes sociais online [advogado], agressões à pessoas em situação de rua [GCM], tentativa de oferecer transporte particular para todos os servidores que quisessem furar a greve, tentativa essa que fracassou [Uber], desconhecimento da legislação ao afirmar que grevistas não teriam razão/direito para tal paralisação [legislação], entre tantos outros.

Esquerda - Doria

Mas como será que os defensores de Doria rebateram essas acusações e buscaram mudar o rumo das discussões? Aqui está o ponto mais curioso: eles não tentaram fazer isso.

Como observamos na nuvem de palavras abaixo, os termos mais utilizados pelos usuários apoiadores de Doria são dominados por um nome: Lula. Mas o que teria o ex-presidente a ver com as diversas pautas municipais levantadas acima? Nada, talvez. No entanto, a tática de João Doria aqui é bem simples.

Word Art (1)

Sempre que João Doria sente-se acuado – seja nas redes ou nas ruas – ele mira a pauta nacional em uma nítida tentativa de desviar o foco nas acusações. No âmbito nacional, conforme demonstram pesquisas de Datafolha, Ibope, Vox Populi, entre outros, Lula e Bolsonaro se destacam. Assim, Doria não pensa duas vezes e chama para si o discurso de Bolsonaro e passa, incessantemente, a atacar Lula.

Essa curiosa movimentação do tucano acendeu o alerta até mesmo em correligionários do político. Segundo o jornal O Globo, diversos interlocutores já advertiram João Doria sobre os “perigos de seu destempero”.

Doria Paz e amor

Portanto, lembre-se da próxima vez em que esbarrar, em sua timeline, com um vídeo de Doria destilando seu ódio contra Lula: os ataques tem como único objetivo desviar o foco nas redes quando ele passa a se sentir acuado.

Enquanto cidadãos, moradores e usuários, cabe aos paulistanos não cair no debate de baixo nível proposto à nível nacional e assim, continuar, a cada dia, cobrando o prefeito sobre suas responsabilidades em nível municipal, lembrando-o sempre de que ele foi eleito para comandar uma das maiores cidades do mundo, apenas.

Uma semana para o prefeito de São Paulo esquecer: Doria, Greve Geral e Ciclistas

O prefeito da cidade de São Paulo, João Doria, teve uma semana no mínimo conturbada no Twitter. O agrupamento [amarelo] de usuários detratores que mencionaram ‘Doria’ foi a imensa maioria durante o período [61,5%].

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Os ataques partiram das mais diversas frentes: flores [após atirar flores entregues em luto pelas mortes nas marginais de São Paulo após o aumento da velocidade proposto pela gestão Doria], trabalhadores [após ataques aos grevistas durante a paralisação de 28/04], Uber [o prefeito chegou a prometer Uber e 99 Táxis para todos os servidores públicos da cidade durante a Greve Geral, mas teve que voltar atrás após não conseguir cumprir a promessa e gerar mal-estar entre ambas as empresas], Ciclistas [após se recusar a dialogar com cicloativistas e mandar retirar diversas ciclofaixas na cidade], Servidores [servidores da prefeitura regional de Pinheiros chegaram a dormir no trabalho para evitar a greve, e a medida foi vista com bons olhos por Doria], Lula [em uma saga pessoal promovida por Doria com o objetivo de atacar e se colocar como antagonista do ex-presidente] e até mesmo o astro de Hollywood, Schwarzenegger [após visita do ex-governador americano à cidade de São Paulo].

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Assim, Doria deverá continuar apostando alto em suas ‘polêmicas’ nas redes sociais online, sempre tentando dobrar as apostas e, cada vez mais, aproximando-se de agrupamentos que têm em Jair Bolsonaro seu principal representante nas redes. No entanto, a intensa campanha promovida por Doria à frente da Prefeitura começa a dar indícios de que não conseguirá sobreviver intocável as dificuldades que administrar uma das maiores cidades do mundo impõe a qualquer gestor.

Greve Geral: mobilização histórica também nas redes sociais

Durante o dia 28/04, a Greve Geral realizada por todo o Brasil registrou uma movimentação histórica no Twitter. Segundo a FGV-DAPP, o volume de menções superou os maiores protestos em favor do impeachment ao longo dos anos de 2015 e 2016.

Assim, no Twitter, as menções ultrapassaram o um milhão de ocorrências. Os termos capturados foram baseados nas palavras Greve, “Greve Geral”, #NestaGreveEu, #EuApoioAGreveGeral, #GreveNao, #BrasilEmGreve, #GreveGeralNoBrasil e #EuVouTrabalhar. No total, foram capturadas 1.091.815 tweets.

A partir da coleta foi gerado a grafo abaixo, com cerca de 185.992 nós e 421.198 conexões entre eles. Após a modularização do grafo e dos dados coletados, destaca-se a supremacia do agrupamento de esquerda/progressista e de apoio à greve. Ele representa mais de 69,37% de toda a rede coletada durante o dia 28/04. O agrupamento daqueles que se opuseram à greve geral corresponde a 19,25% do grafo. Por fim, o agrupamento de usuários alheios ao embate político e que exploraram de forma cômica e sem juízo de valor correspondeu a 5,25% do grafo.

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Alguns pontos durante o dia marcaram as redes sociais online. Do lado das redes que apoiaram a greve, o período foi de defesa das pautas progressistas, ataques à Michel Temer e mobilização contra as reformas. No decorrer do dia, porém, outro alvo concentrou os ataques e menções desses agrupamentos: a imprensa brasileira.

Já no agrupamento de detratores da Greve Geral, o objetivo desde o dia anterior desenhou-se nítido: atacar a Greve ligando-a ao ex-presidente Lula, ao Partido dos Trabalhadores e a CUT, aparentemente a única central sindical lembrada por esse agrupamento. Todo esse processo gerou um movimento curioso, onde os usuários @lulapelobrasil e @cut_brasil foram quase que “dragados” pelos agrupamentos de detratores que buscaram a todo momento ligar a greve geral a esses dois atores. Da mesma forma, os apoiadores da greve atacaram incessantemente o Movimento Brasil Livre e o prefeito paulistano João Doria, que anos atrás bradavam pela convocação de um Greve Geral e dessa vez posicionaram-se contra. Aqui chama atenção ainda a presença da chef Paola Carosella que criticou de forma indireta declarações do mandatário paulistano.

Menções - Grafo

AGRUPAMENTO DE APOIADORES DA GREVE

O agrupamento de apoiadores no período foi formado, principalmente, por usuários de esquerda/progressistas. Aqui, os principais usuários foram aqueles que fizeram exatamente o que a chamada “imprensa tradicional” não fez: cobriram a greve com maestria e serviram de fonte de informação para todos aqueles que buscavam fugir da cobertura medíocre de veículos dito tradicionais. Assim, @MidiaNinja, @J_Livres, @Brasil_De_Fato e @TelerSURtv foram grandes expoentes desse agrupamento.

Vermelho

O ponto mais interessante aqui talvez seja a diversidade que a composição desse agrupamento revela quando analisado de forma isolada. Aqui, o agrupamento que em um primeiro momento se mostra homogêneo entorno da defesa da Greve Geral, ao ser novamente modularizado e analisado, mostra-se formado por diversos outros agrupamentos. Assim, podemos observar o quanto o tema Greve se propagou para além dos agrupamentos de esquerda/progressistas que diariamente se engajam na pauta político-brasileira e aqui são representados pelo agrupamento vermelho. Para além desse agrupamento, outros foram formados e engajaram-se de forma essencial para que a greve tivesse o impacto histórico que teve nas redes sociais online durante o dia.

Agrupamento vermelho modularizado

Os termos mais utilizados pelos usuários fazem nítida referência ao direito de greve, ataques à Temer e as Reformas. Os três principais pontos de manifestação, aqui, foram Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Diferentemente do agrupamento de detratores que veremos mais adiante, a CUT foi pouco ou quase nada mencionada nesse agrupamento, bem como PT [termo citado em tweets que abordavam a ‘possibilidade de não gostar do PT e apoiar a greve’] e Lula, que sequer está entre os termos mais citados.

Vermelho - Nuvem

Um ponto interessante ocorreu durante o desenrolar do dia: a imprensa brasileira começou a ser extremamente atacada pela pífia cobertura das manifestações e da greve geral. A todo momento comparações entre imprensa brasileira x estrangeira surgiram nas redes e tinham como objetivo atacar principalmente a rede Globo que, desde o dia anterior, ignorava a greve geral em toda sua programação. O tema recebeu atenção especial até mesmo de @mauriciostycer.

AGRUPAMENTO DE DETRATORES DA GREVE

Diferentemente do agrupamento de apoiadores da greve que, durante o período analisado, conseguiram propagar a pauta para outros agrupamentos, os detratores da greve pouco puderam expandir e propagar seus ataques e críticas as manifestações. As figuras com maior participação nesse agrupamento foram: @blogdojefferson, @paulacamara_, @brasil_fotos, @joaquinvoltou, @VEJA, @RevistaISTOE, @roxmo, @JanainaDoBrasil, entre outros. Vale ressaltar as incessantes tentativas de João Doria de se posicionar aqui como principal representante de um agrupamento insatisfeito com as manifestações. No entanto, o prefeito de São Paulo foi alvo de diversos ataques desde o dia anterior, quando prometeu oferecer transporte para todos os servidores e teve que, no fim do dia, desistir da promessa.

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Aqui, diferente do agrupamento de apoiadores da greve, as menções à Lula foram inúmeras: Sítio, Triplex e Lula. Mais uma vez, diferentemente do agrupamento de apoiadores, o termo CUT esteve entre os mais mencionados, bem como o PT.  

Outros termos aqui buscavam cravar que a greve fracassou, ressaltando termos como pneu, ônibus, bala e baderna. O objetivo é deslegitimar o movimento e mostrar uma falsa “violência recorrente” dentro das manifestações. Aqui, diferente dos apoiadores, nenhuma menção foi feita a violência da PM contra os manifestantes.

Azul - Nuvem

AGRUPAMENTO DE APOIADORES DA GREVE – ROSA

Esse agrupamento se aproveitou da presença da greve entre os trending topics mundiais e abordou o tema com outra linguagem, outras visões e com uma linha mais cômica do que todos os outros agrupamentos. Aqui, usuários como @cleytu, @luscas, @queissosenhor, @umvesgo e @luanlovato foram os principais nesse agrupamento.

Rosa

Dentre os termos mais utilizados estão menções cômicas à greve, sem juízo de valor ou ataques as manifestações na maior parte dos tweets. Termos como grevou, sextou, beijo, louça e almoço. Foto tirada em Recife foi extremamente utilizada nesse agrupamento e mostra um morador sentado, na avenida, tomando cerveja com a manifestação ao fundo.

Rosa - Nuvem de Palavras

CONSIDERAÇÕES

Mesmo após o governo de Michel Temer tentar negar o impacto, as redes mais uma vez provam o contrário. As mobilizações entorno da Greve Geral – nas redes e nas ruas – tiveram um impacto histórico não apenas para o governo federal, mas também para a imprensa brasileira.

No decorrer do dia a insatisfação com a cobertura pífia e medíocre da imprensa foi lembrada e questionada por muitos usuários. As comparações com a cobertura independente e até mesmo com a cobertura internacional tornaram a atuação da chamada “imprensa tradicional” cada vez mais questionável perante a opinião pública.

A mobilização atingiu outros agrupamentos – e isso foi essencial para a propagação da pauta. Usuários que não envolvem-se diariamente com o embate político polarizado das redes sociais online se engajaram, dessa vez, na defesa e apoio à greve geral – seja de forma cômica ou crítica. Essa movimentação foi essencial para o sucesso da pauta nas redes.

Do lado dos detratores, o mico ficou na mão de João Doria. O prefeito paulistano que, desde a véspera da greve buscava posicionar-se como porta-voz daqueles que era contra a greve, sofreu uma série de ataques nas redes sociais online e saiu menor do que entrou nesse dia. Não tardou e dobrou a aposta, anunciando que não permitiria a mobilização do 1º de maio na avenida Paulista, cartão postal de São Paulo. Mais uma vez o mandatário da capital paulistana perdeu, na justiça, o direito de manter sua promessa: um juiz plantonista entendeu, na tarde de domingo [30/04] que é necessária garantir a equidade de tratamento a todos movimentos sociais.

#ChegaDeAssédio: a culpa que a Globo prefere individualizar

Na manhã da última terça-feira (04/04), José Mayer divulgou uma carta assumindo, nas palavras dele, “eu errei”. Para além dos erros elencados por Débora Diniz na Carta Capital, é importante analisar como as redes reagiram a carta do José Mayer que, vale ressaltar, só foi divulgada por pressão de movimentos feministas dentro e fora da Rede Globo, já que até um dia antes diversos atores envolvidos e canais de imprensa culpavam a figurinista violentada, vítima do ocorrido.

Chega de Assédio

Hashtags mais utilizadas para abordar o crime cometido por José Mayer.

Ao analisarmos o Twitter em busca das principais hashtags envolvidas com as denúncias contra o ator, observamos um ponto interessante e que merece reflexão: as denúncias de uma outra atração, com outros funcionários da mesma emissora, envolvendo o mesmo tipo de denúncia: ofensas machistas e atitudes misóginas no Big Brother Brasil. Não foi a primeira vez que esse tipo de acusação atingiu um participantes do programa – na realidade não foi sequer a primeira edição onde isso ocorreu. “Mas a Globo não produziu esse cenário”, alguns podem argumentar. A dúvida que fica é: será? Vale lembrar que dias atrás um dos participantes deixou escapar que um dos diretores teria ordenado que ele “comesse” uma das participantes. A história, seja verdadeira ou não, sequer foi desmentida pela produção do reality show.

Para a surpresa de muitos, na manhã desta quarta-feira (05/04) foi a vez de um ator sair em defesa de José Mayer: Caio Blat defendeu o ator dizendo que “não houve intimidação”.

São menos de 24 horas, três denúncias e três diferentes atores envolvidos em denúncias – todas nítidas e inegáveis – envolvendo machismo, misoginia e/ou crimes de assédio. O que tem em comum? A mesma emissora: Rede Globo.

Mais do que nunca devemos parar e pensar: é, realmente, um problema individualizado como tenta fazer transparecer a emissora? Até quando a emissora continuará tratando o tema como desvio de conduta pessoal em alguns casos, como potencial para o crescimento da audiência (BBB) em outros e não como uma crise institucional?

Engana-se quem acha que a disputa do MBL ainda é nas ruas

Diferente do que muitos usuários vem afirmando desde as manifestações de ontem, a impressão é de que o Movimento Brasil Livre, na realidade, nunca quis ir às ruas nesse domingo (26/03). A movimentação teria se iniciado pelo Vem Pra Rua, outro movimento que já vem, desde o ano passado, apresentando sérias divergências em comparação ao MBL, conforme ressaltado aqui no dia 04/12.

Ao analisarmos não apenas o dia 26/03, mas também a véspera dos atos, o que podemos observar é uma maior mobilização por parte do movimento Vem Pra Rua, com convocações e menções a todo o tempo lembrado as manifestações, os locais e as pautas dos organizadores. Por outro lado, o MBL foca durante o período em postagens de apoio à Doria e um possível “conflito interno” entre PSDB e DEM pela chapa de 2018, intercalado com defesas das reformas trabalhista/previdência proposta pelo governo Temer. Basicamente o que as redes aparentam é: o MBL nunca quis ir às ruas nesse domingo. O movimento teria ido foi às ruas “obrigado” por aqueles movimentos que o acompanharam durante o período do impeachment.

Vem Pra Rua

Principais termos utilizados pelo Vem Pra Rua nas postagens dos dias 25 e 26/03

O ponto – no mínimo curioso – é: o MBL aparenta estar muito mais envolvido no que cada vez mais se desenha como uma disputa interna partidária. A questão central é entender quem financia e quem impulsiona essa disputa cada vez mais escancarada nas redes. As agressões são nítidas: o dia 25/03 foi marcado por um bombardeio intenso à Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente teria, dias atrás, atacado João Doria, figura central nessa disputa e extremamente defendida pelo MBL.

Principais termos utilizados pelo MBL nas postagens dos dias 25 e 26/03
Principais termos utilizados pelo MBL nas postagens dos dias 25 e 26/03

A página do MBL chegou a apresentar, no dia 25/03, uma movimentação maior do que no dia 26/03. Nesse dia, das 10 principais postagens em engajamento, sete foram de defesa à João Doria e ataques ao que consideram “esquerda-tucana” e ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. As outras três se dividiram em ataques à Lula, críticas aos sindicatos e convocação para os atos do dia seguinte.

No grafo abaixo podemos observar a importância para os atos – esvaziados, é verdade – dos movimentos Vem Pra Rua e MBL. O primeiro foi responsável por 62,96% do grafo, com 85.312 nós e 256.579 arestas, enquanto o segundo corresponde a 37,04% do grafo com 50.195 nós e 91.691 conexões. Quando analisamos as principais publicações em engajamento a diferença é ainda maior: das 20 principais, 18 são do Vem Pra Rua e apenas duas são do MBL.

Cluster verde: MBL; Cluster vermelho: Vem Pra Rua. Atividade entre os dias 25 e 26/03
Cluster verde: MBL; Cluster vermelho: Vem Pra Rua. Atividade entre os dias 25 e 26/03

Outras análises precisam – e deverão – ser feitas nos próximos dias, focadas especialmente na compreensão de uma causalidade ou correlação entre ausência/presença do MBL, poder de mobilização, financiamento das manifestações e poder político.

É importante que setores progressistas não se acomodem com o cenário, ou sequer posem como vencedores nessa disputa. O MBL continua sim, muito forte. O Vem Pra Rua já mostrou que, sozinho, perde-se e não vai a lugar algum. O que se desenha aqui não é a vitória de algum movimento sobre a direita e o conservadorismo nas ruas. O que se pode supor, na realidade, é uma retirada estratégica Movimento Brasil Livre das ruas, acompanhada de um crescimento forçado do Vem Pra Rua no vácuo de poder deixado pela ausência proposital do MBL.

Assim esse domingo registrou, na realidade, não a falência do MBL enquanto aglutinador de pautas e mobilização da sociedade insatisfeita, mas sim a incapacidade de outros movimentos como o Vem Pra Rua de cumprirem essa função sozinhos. Enquanto isso o MBL se dedica a outras pautas, assuntos e disputas, digamos, um tanto quanto obscuras.

#GreveGeral: Temer cumpre sua promessa e começa a unir o povo brasileiro

Durante o dia 15/03, marcado por manifestações contra a Reforma da Previdência e o governo Temer, capturei ocorrências que contivessem os seguintes termos: #15M, #GreveGeral, #QueroMeAposentar eReforma da Previdência”.

Grande Grafo do 15M

Como podemos observar, o maior agrupamento durante o período foi o representado pela cor verde – e aqui está o ponto mais interessante desse cenário capturado pela análise: trata-se um agrupamento de usuários que raramente se envolve no embate político no Twitter. Material gráfico que retrate concretamente os prejuízos da reforma para a população, bem como manifestações de setores de trabalho que possuem contato direto com esse público jovem (professores, por exemplo), tem enorme impacto entre esses usuários. Voltado a assuntos do cotidiano, BBB e temas especificamente “trends” no Twitter, voltaram suas atenções para a Reforma da Previdência e impactaram dezenas de milhares de usuários que não são impactados pelo outro agrupamento engajado nessa disputa contra a reforma: os agrupamentos amarelo/rosa/vermelho.

Esse “emaranhado” de agrupamentos formado, na realidade, por cerca de seis agrupamentos significativos, engloba os usuários regularmente engajados no debate e cobertura política dos eventos progressistas no Twitter. Conta também com alguns perfis que foram os responsáveis por “produzir e alimentar” a intersecção entre ambos grande-clusters que se uniram, de certa forma, contra a reforma da previdência.

No que podemos chamar de centro-oeste do mapa estão os usuários da imprensa dita tradicional brasileira, que se revezaram entre a ausência da cobertura das manifestações e notícias acerca dos “transtornos” causados pelas greves e paralisações, alimentando assim outro cluster representativo: o agrupamento azul, localizado na parte superior do grafo. Aqui, não é surpresa, o principal e potencial usuários é – e será – o Movimento Brasil Livre, responsável por dar uma nova “roupagem” nos próximos dias a reforma proposta por Michel Temer. No que se refere ao Twitter, mora aqui a principal esperança do governo Temer de “mudar a maré” acerca da reforma e da opinião pública.

O que o #15M nos mostrou foi, mais uma vez, a completa ausência de uma cobertura massiva da imprensa tradicional que se assemelhasse aquelas realizadas durante o processo de impeachment. Esse ponto foi levantado por muitos usuários que, cada vez mais, encontram em usuários como Mídia Ninja, Brasil de Fato, RBA, Jornalistas Livres, The Intercept Brasil e outros canais de mídia independente, uma luz no fim desse longo, macabro e escuro túnel que é a imprensa brasileira.

É também interessante – para não dizer irônico – que um governo que semanas atrás foi acusado de tentar comprar o apoio de jovens youtubers e influenciadores de rede tenha conseguido, em tão pouco tempo, criar um buzz capaz de envolver no debate político do Twitter um agrupamento de influenciadores tão importante para a rede e tão alheio ao debate político como é o agrupamento verde, destacado no início do texto.

Fato é que, ao contrário do que Temer afirmou, a sociedade está longe de entender, compreender e até mesmo apoiar as reformas proposta por seu governo. E o #15M demonstrou que, para além das ruas, as redes também demonstram que não, não se trata apenas de mais um embate “sindicatos x governo”. Dessa vez, o buraco é mais embaixo.